Pouco se sabe a respeito da história da dança oriental a chamada dança do ventre -, pois muitos registros se foram junto com as antigas civilizações. O que se tem certeza é que é uma dança solo feminina que teve sua origem em rituais sagrados de fertilidade na Antiguidade. As mulheres dançavam pedindo a fertilidade de seu corpo e também da terra, numa época em que família numerosa e terra generosa eram sinais de saúde das pessoas e da sociedade, e garantia de sobrevivência do grupo.
Era uma dança feita apenas entre mulheres e para mulheres; o ato de dançar para um público surge bem mais tarde, nas cortes. Hoje ainda se fazem alguns rituais em locais que se mantiveram isolados de influências externas, mas o mais comum são danças entre familiares, como manifestação de alegria.
Estas danças feitas em casa ou em festas familiares são executadas por mulheres da própria família ou amiga próxima, como uma brincadeira entre conhecidos. Às vezes é chamada uma mulher mais habilidosa para dançar em festas especiais, mas tudo num clima descontraído e familiar.
Um dos enganos de hoje é levar este tipo de dança, feita perto das pessoas, sem qualquer alteração, para ambientes públicos e com pessoas desconhecidas, como boates e restaurantes. Em locais como esses, a bailarina deveria fazer seu show num local específico para este fim e só ir para perto das mesas se o salão fosse grande, para estar mais próxima e brincar um pouco com o público. É muito diferente da descontração das festas caseiras, onde se brinca com pessoas que você convive desde que nasceu e todos conhecem e respeitam quem está dançando. A bailarina neste caso deixa de ser uma familiar que gosta de dançar para se transformar em uma artista.
Outra maneira de se apresentar, muito comum no Oriente, na Europa e nos Estados Unidos são os shows em teatros e casas de espetáculos. Assim como existe, na música, a animação de festa e o espetáculo musical, nos quais todos se sentam para apreciar o show, na dança também temos estes dois tipos de apresentação. Infelizmente, no Brasil, os espetáculos em teatros são raríssimos e poderiam mostrar todo o potencial desta dança hoje restrita a restaurantes e festas.
Como em outras manifestações cênicas (teatro, música, etc), a dança feita em teatros é proveniente das manifestações populares, só que com muito mais precisão e elaboração dos movimentos. Assim como o ator não fala numa peça teatral da mesma forma que fala em casa, num espetáculo de dança não se faz o movimento como se faz
O nome original da dança é RAKS SHARKI, ou DANÇA ORIENTAL. O nome dança do ventre é ocidental e, se você falar para um árabe que faz dança do ventre, ele não vai saber o que é.
Existem duas versões para a existência deste nome aqui no Ocidente. A mais provável é que tenha surgido na França, quando o exército de Napoleão voltou do Egito. Tendo visto as bailarinas egípcias, os franceses, tão acostumados com a linguagem do ballet clássico - que trabalha mais as extremidades do corpo, mantendo o tronco rígido -, ficaram impressionados com os movimentos incessantes do tronco e a chamaram danse du ventre.
Uma outra versão é a de que, tendo os americanos entrado em contato com imigrantes árabes que dançavam o baladi (nome popularmente dado a um dos ritmos árabes mais famosos, o masmudi sahir, bastante utilizado pelos camponeses), também impressionados com os movimentos, fizeram um jogo de palavras com belly (ventre), então: baladi dance = belly dance (dança do ventre).
Seja como for, são estrangeiros dando nome a uma dança que não conhecem, que os impressiona no que é muito diferente do que estão acostumados: o movimento do ventre - apesar desta dança trabalhar todo o corpo.
A partir do contato dos soldados invasores com a dança oriental, começaram a surgir distorções: as mulheres que dançavam para eles eram profissionais de tabernas e cabarés, que enfatizavam apenas aspectos eróticos da dança, dado o ambiente em que se encontravam.
Até hoje, existe uma visão fantasiosa do Ocidente em relação aos árabes, sua cultura, costumes, religião e estrutura social e, conseqüentemente, suas mulheres e de sua dança.
Os árabes deveriam conhecer e mostrar mais a cultura de seu povo para que começassem a difundir a realidade e não tantas fantasias. Acredito que os imigrantes aqui estabelecidos tiveram, nos primeiros tempos, que se adaptar a uma terra e costumes estranhos e também lutar muito. Infelizmente, muitos se afastaram de sua cultura de origem acreditando que, com isso, essa adaptação acontecesse mais rápido. Hoje, já estabelecidos e entrosados, poderiam reatar esses laços, redescobrir e divulgar a Arte árabe.
No caso da dança oriental, existem muitas distorções em função também deste afastamento, e a presença de um grande número de descendentes que praticassem e pesquisassem a dança certamente ajudaria a diminuí-las.
Mas infelizmente existe preconceito dentro da própria colônia: nós aceitamos que estrangeiros dêem o nome que quiserem para a dança, aceitamos também que ela seja distorcida e levada à vulgaridade e, às vezes, até estimulamos o equívoco, contratando para dançar em festas profissionais pouco preparadas, apenas pela aparência física ou por ser mais barato. Dizemos: é assim mesmo e não queremos que as mulheres da colônia dancem.
Só que não é assim mesmo. Podemos dançar com alegria, charme e classe, para que todos se divirtam - e não apenas os homens - e deixem o show com a sensação de que a arte árabe é mesmo maravilhosa e pode nos tocar profundamente. Hoje existe muito interesse da sociedade pelas danças étnicas em geral, e pela árabe
Márcia Dib, bailarina, coreógrafa e professora de dança árabe. Pesquisa arte e cultura árabe em geral há 22 anos. Professora nos clubes Homs, Sírio e Monte Líbano.
*Este artigo é uma adaptação de texto publicado na Revista Chams.
Dança Árabe pelos Árabes
Por Márcia Dib
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